Obrigada Senhor !
Eu vou pegar o gancho da entrevista que dei na sexta para o Globo, para continuar dizendo o que eu acho da abertura da Igreja Católica Apostólica Romana – ICAR. Eu fui batizada na Igreja Católica e os meus filhos também. Questionadora que sou, sempre senti um incomodo muito grande por pertencer a uma religião que promoveu Cruzadas, uma Inquisição, omissão frente a genocídio de índios, escravidão , holocausto e aos milênios de sexismo e opressão as mulheres e LGBTs. Sabendo que todos estes são atos humanos, resolvi seguir preservando o divino e o sagrado dentro de mim.
Apesar disso, quando meu filho mais velho se assumiu gay, eu tive que usar a máxima popular: “Os incomodados que se mudem” ! Eu não sou mais católica, porque quando eu mais precisei eu não pude contar com a minha Igreja, muito pelo contrário. Foi o primeiro lugar que procurei e inócuo foi. Queriam enfiar meu filho de volta pra dentro do armário. Surpresa nenhuma vindo do maior armário universal.

Hoje eu sei separar bem religião e religiosidade. Apesar disso, continuei devota de minha Nossa Senhora a quem peço todos os dias que cubra meus filhos com seu manto sagrado ! Nos últimos anos tenho tido a grata surpresa de me deparar com vozes que lentamente se levantam na defesa dos LGBT dentro das Igrejas . São padres, rabinos e pastores que gradualmente se colocam a serviço do enfrentamento a homofobia e suas matizes tão injustas. Poderia citar aqui Padre Beto, Rabino Nilton Bonder, Pastor Ricardo Gondim, Pastor Marcio Retamero e tantos outros. Seria eu uma intolerante se fosse buscar nas fogueiras da inquisição motivos para odiar a ICAR sendo eu, hoje, testemunha da tentativa de mudança.
Na visita do Papa Francisco, pudemos ver a Diversidade Católica na JMJ. Logo depois vieram as declarações do Papa. Logo depois vieram as novas diretrizes da CNBB e que trazia em uma de suas pautas, pauta aliás que me arrancou lágrimas, o acolhimento a casais homoafetivos e que os filhos destes fossem mais que acolhidos, fossem batizados. Em seguida, vimos o apoio do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil) do qual faz parte a ICAR, com assinatura em carta aberta ao PLC122 que pedia a equiparação da homofobia ao racismo.

Neste meio tempo, vimos Padres do mundo todo se posicionando contra as injustiças e a opressão sistemática ao povo LGBT . A felicidade de nossos meninos , meninas e famílias sexodiversas que teem no sagrado seu ponto de equilibrio, foi tão grande, tão imensa que cartazes homenageando esses religiosos inundaram as redes sociais.
Mas o ápice aconteceu as vésperas da Parada LGBT , quando a Arquidiocese de São Paulo emitiu a seguinte nota:
” Nota da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo
Fiel à sua missão de anunciar e defender os valores evangélicos e civilizatórios dos Direitos Humanos, a Comissão Justiça e Paz de São Paulo (CJPSP) vem a público manifestar-se por ocasião da 18ª Parada do Orgulho LGBT que se realiza na Av. Paulista no próximo domingo, dia 04 de maio de 2014.
Nosso posicionamento se fundamenta na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, aprovada pelo Concílio Vaticano II, que diz: “As alegrias e esperanças, as tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração.”
Assim, a defesa da dignidade, da cidadania e da segurança das pessoas LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais – é imprescindível para a construção de uma sociedade fraterna e justa. Por isso não podemos nos calar diante da realidade vivenciada por esta população, que é alvo do preconceito e vítima da violação sistemática de seus Direitos Fundamentais tais como a saúde, a educação, o trabalho, a moradia, a cultura, entre outros. Além disso, enfrentam diariamente insuportável violência verbal e física, culminando em assassinatos, que são verdadeiros crimes de ódio.
Diante disso, convidamos as pessoas de boa vontade e, em particular, a todos os cristãos, a refletirem sobre essa realidade profundamente injusta das pessoas LGBT e a se empenharem ativamente na sua superação, guiados pelo supremo princípio da dignidade humana.”
A semana passada, a consagrada revista Vida Pastoral , foi toda dedicada a sexualidade homoafetiva e pela primeira vez na sua história, trouxe um artigo de uma pessoa que não é padre, nossa querida Edith Modesto, e outro daquele que sempre traz em suas palavras um bálsamo para nossas almas sofridas, nosso amado Padre Luís Corrêa Lima. Neste dia recebi uma mensagem de um menino…Emmanuel, que beirava a loucura de tanta felicidade e desejo de outra vez abraçar sua fé.
Por último, tivemos a declaração do Secretário Geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner, que diz que uniões entre pessoas do mesmo sexo precisam de amparo legal.
Dito isso, eu espero que as pessoas entendam que sim, estão havendo reais mudanças na Igreja Católica. Hoje o Papa Francisco soma sua voz a de outros dois grandes líderes religiosos mundiais, Desmond Tutu e Dalai Lama pelo fim da perseguição ao povo LGBT.
Lembrem-se sempre, que os países com esmagadora maioria católica são os que mais somam avanços na causa LGBT, Espanha , Portugal, Argentina e Uruguai.
Sigo com minha fé…porque…CONTRA O AMOR NÃO HÁ LEI ! GÁLATAS 5:23
Dito tudo isso, eu, essa mãe de LGBT, devota de Nossa Senhora, só tenho uma coisa a dizer: OBRIGADO SENHOR, OBRIGADO PAPA FRANCISCO ! E termino com um presente que ganhei de um padre…aquele que enxugou minhas lágrimas e que fez com que eu levantasse a cabeça e seguisse com dignidade e amor ao meu filho…




53 Danillo da Silva 04/06/2014 14:41
O conteúdo do texto é ótimo, entretanto não acredito que a igreja católica tenha interesse em “amparar” a comunidade LGBT, tenho uma convicção pessoal que acredita fielmente que nos últimos anos a imagem da igreja ficou “brutalmente” manchada devido os casos de pedofilia que ocorreram em todo o mundo, sem contar todo histórico negativo da igreja citado no inicio do texto da Maju, entendo esse “suposto apoio” a nós LGBT, uma estratégia para melhorar a imagem da igreja católica.
52 Acir 27/05/2014 19:38
Bem Majú, como já disse antes, você é um pouco mãe de todos nós.
Estou muito emocionado (mais do que antes) com este seu depoimento. É este acolhimento fraterno que tanto estamos buscando.
Um beijão linda!
51 Rose Mary da Rocha e Silva. 27/05/2014 17:27
Sou católica, devota de Nossa Senhora das Graças. Quando descobri que meu filho era trans, o primeiro lugar que procurei foi a igreja, pois muitos na minha família dizia, que os gays, não eram filhos de Deus, mas sim de satanás, e isso me desnorteou. Mas Graças ao Bom Deus, o padre da minha igreja “Santo Cristo dos Milagres”, o padre Benedito, enxugou minhas lágrimas e disse: minha filha, foi Deus quem criou todas as criaturas, e Deus não nos vê, com olhos humanos. Quando ele nos vê, Ele não vê se voce é preto, branco, pobre ou gay, Ele vê o seu coração, a essência que vive dentro de voce, que é o amor a bondade, se o seu filho é um bom filho Deus o ama muito, então ame muito mais esse seu filho, pois ele vai precisar muito, ame por todos aqueles que vão deixar de ama-lo, quando descobrirem a sua verdade. E creia que Deus o ama muito mais por isso mesmo. Na religião, eu vejo o foco que é o amor de Jesus.